A chegada da TV 3.0 representa um marco na história da radiodifusão brasileira. Com qualidade de imagem superior, interatividade ampliada e integração com a internet, essa nova geração de televisão promete transformar radicalmente a forma como o público consome conteúdo. Mas, por trás da inovação tecnológica, há uma realidade que merece atenção: o impacto profundo sobre os profissionais que sustentam esse setor há décadas — os radialistas.
Desde a promulgação da Lei 6.615/78, os trabalhadores de rádio e televisão conquistaram direitos específicos, como jornada de trabalho especial e regulamentação de funções. Essa legislação reconheceu a singularidade da atividade radialista, marcada por sua natureza artística, técnica e comunicacional. No entanto, o avanço acelerado da tecnologia tem colocado em xeque essa estrutura.
O decreto 9.329/2018 reduziu drasticamente o número de funções regulamentadas de 94 para apenas 25. Essa mudança não foi apenas administrativa — ela simbolizou o encolhimento do reconhecimento formal da diversidade de papéis que os radialistas desempenham. Muitos profissionais viram suas funções desaparecerem do quadro legal, mesmo continuando a exercê-las na prática. A invisibilidade institucional se tornou um novo desafio.
Agora, com a TV 3.0, o cenário se torna ainda mais complexo. A automação, a inteligência artificial e a convergência digital prometem eficiência, mas também levantam questões sobre o espaço do trabalho humano. Quem produz o conteúdo? Quem garante a qualidade técnica? Quem preserva a identidade cultural da programação? São perguntas que não podem ser respondidas apenas com algoritmos.
É preciso refletir: a tecnologia deve servir às pessoas — não substituí-las. Os radialistas são mais do que operadores de equipamentos ou vozes no ar. São guardiões da memória coletiva, mediadores da informação e criadores de experiências que atravessam gerações. A TV 3.0 pode ser uma oportunidade de reinvenção, sim, mas essa reinvenção precisa ser acompanhada de valorização, formação continuada e atualização da legislação.
Que esse novo capítulo da televisão brasileira não seja escrito apenas com códigos e pixels, mas também com respeito à trajetória de quem construiu — e continua construindo — a radiodifusão no país. Porque sem radialistas, a TV 3.0 corre o risco de ser apenas uma tela brilhante, desumanizada sem alma e sentimentos.
JUNTOS SOMOS MAIS FORTES! NENHUM DIREITO A MENOS!


